Cuba II – Alugando um carro em Cuba: perrengues e confusões

Como eu citei no primeiro post, alugar um carro em Cuba pode ser uma experiência totalmente nonsense.

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Então eu aluguei este carro e… Mentira, isso foi só pra deixar o começo do post mais chamativo… hehehe

Alugar um carro em Cuba é muito caro, a maioria das estradas é mal conservada e mal sinalizada e dirigir dentro das cidades é muito complicado. Ainda assim, não me arrependi de ter feito isso e direi por quê.

Porque decidi alugar um carro

A ideia surgiu desde os primeiros planejamentos para a viagem. Como eu teria apenas 10 dias para conhecer Cuba e queria ver o máximo possível do país, mas sem muita correria, decidi que alugaria um carro, ainda mais se tratando de um lugar cujo transporte é complicado.

Se a intenção fosse apenas circular por Havana e imediações, um carro seria na verdade um grande estorvo, mas como eu desejava conhecer o interior consegui percorrer quase uns 50% do país num ritmo tranquilo, sem atropelos.

Tarefa complicada

As complicações para conseguir um carro nas terras de Fidel não foram poucas. Pra começar, simplesmente não consegui reservar nada via internet. Se você conseguir essa façanha, considere-se uma pessoa de sorte!

Cuba tem umas poucas locadoras, as mais conhecidas são a REX, Havana Autos, Cubacar e Transtur. Todas na verdade pertencem ao governo pelo que consegui entender e acabam sendo quase a mesma coisa. Se é que não são, sei lá.

O fato é que os sites de todas são péssimos ou mesmo inexistentes. Parecem sites dos anos 90. Quando tentei fazer uma reserva as páginas davam erro ou meus e-mails não eram respondidos. Quando responderam chegou a vir uma resposta da Alemanha de uma empresa que seria uma espécie de representante da locadora fora de Cuba, mas que não poderia me ajudar em nada!

A única página que parecia funcionar era justamente a da locadora que tinha os carros mais caros.

Enfim, estava tão complicado que simplesmente desisti e deixei pra ver o que acontecia na hora que chegasse lá.

E aí eu cheguei. E as complicações foram ainda maiores.

Desembarquei no aeroporto de Havana (que parece uma rodoviária, mas chamam de aeroporto) e fui ver se achava alguma locadora ali. Havia dois stands de locadoras, das mesmas empresas já citadas, mas em ambos informaram que não tinham nenhum carro para alugar. Era dia 02 de janeiro e por isso a cidade estava cheia de turistas e os carros todos locados.

Eu já havia feito reserva numa casa de família em Santa Clara (uns 280Km de distância) para essa noite e tinha que chegar lá. Era pouco mais de meio-dia. Conversa daqui, conversa dali, e um taxista se ofereceu para irmos até o centro de Havana e procurarmos um carro para alugar. Ele faria isso por um preço fixo, independente de quanto tivesse que rodar.

Como o preço estava razoável, aceitei a proposta e lá fomos nós numa saga atrás de uma locadora. Tentamos umas cinco e a resposta era sempre a mesma: “no hay coches para alquilar em Habana!” Pelo menos essa parte do táxi serviu como um minitour por Havana… =)

Diante da situação e da minha decepção, o taxista me deixou na rodoviária, já que só restava o ônibus como opção para chegar a Santa Clara. Quando entrei na rodoviária a situação era caótica, uma multidão se acotovelava e deu trabalho para atravessar aquilo num calor do caramba. Se o aeroporto parecia uma rodoviária, sei lá o que a rodoviária parecia. Aí, quando consigo chegar ao guichê da empresa, segue-se um diálogo surreal com um cara que parecia estar derretendo com o uniforme da empresa, com uns 5 botões da camisa desabotoados e encharcado de suor no meio daquela balbúrdia. A própria imagem do sofrimento.

– Tem ônibus para Santa Clara? Pergunto eu.

– Tem sim, às 15:00h.

– Então quero uma passagem.

– Passagem não tem, está lotado.

-Hum?! É? E depois desse, qual o próximo?

– Só as 22:30h.

– É muito tarde pra mim, não tem outra opção?

– Tem esse das 15:00h.

– Mas você não disse que está lotado?

– Está sim.

– Ué, mas como faço então?

– Você pode ir perguntando pela rodoviária quem vai pegar esse ônibus e ver se alguém desiste de ir e te vende a passagem…

Por Deus que achei que o bigodudo das passagens estava tirando com a minha cara, mas não. Ele e as pessoas próximas estavam tratando a situação com a maior naturalidade. Coisas normais em Cuba.

Naquele momento refleti que, se cada vez que eu reclamar do meu emprego eu lembrar do bigodudo naquele guichê lotado e sem ar-condicionado, naquela rodoviária entupida de gente, verei que sou feliz…

Bom, pegar o ônibus das 22:30h era fora de cogitação, pois eu chegaria passado das 2 horas da madruga em Santa Clara e nem sequer fazia ideia de como usar um telefone em Cuba para tentar comunicar a dona da casa.

Êlaiá… Saí da rodoviária pra pensar no que fazer e logo um taxista com um velho Lada Laika caindo aos pedaços veio perguntar se eu queria ir para o centro. Respondi que não e expliquei minha situação. Ele me disse que sabia de uma locadora meio esquecida de todos, pois ficava no estacionamento do Hotel Nacional e normalmente só os hospedes alugam carros lá.

E lá fomos nós. Eu evitando me encostar na porta do Lada com medo que ela se abrisse… Alías, parecia que qualquer coisa naquele carro poderia cair se encostasse a mão… No rádio alguma música caribenha em volume alto e um cheirão de gasolina a cada acelerada. O banco estava tão detonado e a suspensão tão arriada que parecia que eu estava sentado num pudim motorizado.

Mas o cara foi bem prestativo – como os cubanos costumam ser – e chegamos ao pequeno guichê da locadora, meio escondido sob uma enorme figueira no estacionamento do Hotel Nacional. E finalmente dei sorte. Não AQUELA sorte, mas um pouco de sorte, pelo menos.

Havia um Kia Picanto disponível para as 17:30h. Não era o mais barato da locadora. Por ter câmbio automático era o segundo mais barato. Mas só o fato de ter conseguido já me animou.

Você imaginava que eu alugaria um Plymouth 1955 ou um Bel Air 1957 em Cuba? Não não jovem. Os carros para locação são atuais. Aliás, o “meu” estava com 1000 e poucos Km apenas, cheirando novo!

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Esse foi o transporte por 7 dias em Cuba. Ok, um Cadillac 1956 seria mais divertido, mas não é bem assim que funciona…

Enquanto a mulher preenchia a papelada e o mimimi burocrático perguntei se podia usar o banheiro. Ela me indicou o tronco da figueira e disse que era ali o banheiro deles… Pois é, Cuba não é para os fracos. A julgar pelo tamanho, a árvore já devia existir desde que Fidel era guri, de forma que o tronco era quase uma parede. Como o aperto era grande, dei uma boa olhada pra me certificar de que ninguém estava vendo e irriguei um pouco mais a figueira…

O engraçado é que a locadora era da Cubacar e eu já havia passado em outras lojas da mesma empresa e não havia carros disponíveis. Simplesmente porque em Cuba você não vai encontrar internet ou computadores ligados em rede, onde se possa pesquisar esse tipo de coisa. Não adianta, você precisar ir pessoalmente ou ligar para os locais.

Bom, já mais tranquilo, fui tomar uma cerveja no hall do Hotel Nacional e bater um pouco de perna por Havana, já que teria umas 3 horas livres até as 17:30h. Mas isso é assunto para outro post.

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Após um dia confuso em Havana, essa foi a merecida recompensa, de fabricação cubana…

Custos – aí que o bicho pega!

Pois é, acredito que o aluguel de um carro em Cuba esteja entre os mais caros do mundo. Sete dias de carro me custaram o equivalente a 2.100 reais em janeiro de 2015! Ou seja, foram coisa de 300 reais/dia! Para um mochileiro pé rapado como eu, isso é muita grana e o custo com carro foi mais da metade do total de gastos em Cuba! Foi também um pouco menos que o custo total das passagens aéreas de ida e volta.

Talvez o que mais complicou foi o fato de estar sozinho. Em quatro viajantes seriam R$ 525,00 por pessoa. Bem mais razoável.

Mas, como já disse, não me arrependi. O carro me permitiu ver muito mais de Cuba do que seria possível sem ele. E convenhamos: alguns milhares de Km de aventura valem muito mais do que uma TV de LED nova, por exemplo – e você mofando num sofá – não concorda?

No próximo post falarei do que aconteceu após as 17:30h desse primeiro e atrapalhado dia em Cuba e de como foi a experiência maluca de dirigir por lá.

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