Cuba I – Cuba realmente parou no tempo?

Na primeira postagem do blog já começo falando sobre o país mais complicado de se descrever dos que pude visitar até hoje: Cuba.

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Carros dos anos 50 circulando pelo Malecón de Havana. Ao fundo o Hotel Nacional.

A ilha de Fidel povoa o imaginário de muitos e mesmo hoje, quando já é bem mais fácil conhecê-la, ainda pariam muitas dúvidas sobre o país e suas realidades. Sim, realidades, e são muitas, como mostrarei ao longo dos próximos posts.

Realmente, não pense que é fácil falar sobre Cuba. Nem um pouco. É preciso viver e experimentar seu cotidiano para avaliar seus contrastes. Cuba é uma cápsula do tempo, um paraíso tropical dividido entre a beleza e a miséria que parou em 1959, quando Che, Fidel e Raúl Castro apertaram a tecla pause na vida do país. Um microcosmo de contrastes e contradições. Você poderá visitá-la e revisitá-la e aparentemente nunca encontrará todas as respostas. Exagero? Não sei, mas eu pelo menos continuo tentando entender tudo o que vi e vivi por lá.

Eu passei 11 dias em Cuba. Não foi tanto tempo quanto gostaria, mas foram dias muito bem aproveitados e suficientes para conhecer a metade do país, sobretudo porque aluguei um carro para isso, uma experiência totalmente nonsense em se tratando de Cuba, mas da qual não me arrependo e falarei a partir do próximo post…

Há muito – muito mesmo – o que se falar sobre Cuba, mas neste primeiro post trato sobre um assunto que sempre me intrigava desde criança: Cuba realmente parou no tempo? Tudo lá continua como na década de 50? Sim. E não. Mas muuuito mais sim do que não!

A maioria dos carros cubanos são realmente aquelas relíquias dos anos 50?

Aham. Não digo a maioria, mas quase! Eu avaliaria a frota de carros cubana mais ou menos assim, pelo que pude constatar: uns 40% são carros anteriores a 1959; uns 35% são Lada (aqueles carrinhos russos que foram vendidos no Brasil no começo dos anos 90, quando começaram as importações) e o restante são carros atuais (considerando atuais os carros fabricados de uns 15 anos pra cá).

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Cena comum no dia-a-dia de Cuba.

Os carros de diversas gerações estão misturados no trânsito, mas é comum flagrar grupos somente de carros antigos, dada a grande quantidade existente. Nos primeiros dias em Cuba eu ficava fascinado vendo todos aqueles carros como se estivesse num museu ao ar livre. No final da trip já havia até me acostumado com a cena e nem ligava muito, de tanto que ainda se vê esses carrões…

Um detalhe interessante é que existe um “hiato” muito claro na idade dos carros, pois com a Revolução a importação de automóveis parou ali por 1959 e só foi retomada anos depois, com a aproximação de Cuba com a extinta URSS (que acabou em 1991). É aí que entram os Lada (principalmente o modelo Laika, sedan e perua). Então praticamente todos os carros de meados dos anos 60 até o comecinho dos anos 90 são russos.

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Um Ford Fairlane 1955 ao lado de uma Lada Laika e alguns carros mais modernos ao fundo.

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Detalhe para o bem-humorado adesivo no vidro traseiro do mesmo carro: “dos Chevrolet no hacien un Ford” (dois Chevrolet não fazem um Ford). Muitos cubanos tem noção do valor das relíquias que dirigem e do interesse que elas despertam nos turistas. Os carros antigos são praticamente um patrimônio cultural cubano.

É preciso dizer que a maioria dos carros antigos estão em bom estado de conservação – considerando que muitos rodam a mais de 60 anos. Alguns estão realmente impecáveis ou precisam de muito pouco para ficar em ótimo estado.

E como os cubanos conservam esses carros americanos antigos? Bem, o cubano é por excelência um faz-tudo. A situação os obrigou a se virarem do jeito que podem e a sempre dar um jeitinho. Conforme eles me contaram, a grande maioria dos carros antigos teve seus motores originais trocados por motores a diesel para torná-los mais econômicos. São motores adquiridos de segunda mão de países próximos, como Panamá e Costa Rica, por exemplo. Normalmente são provenientes de pick-ups, para conseguir mover coisas tão pesadas.

Tenhamos em mente que ter um carro em Cuba é como ter um bem muito precioso, que passa de pai para filho e que se for perdido talvez nunca mais se consiga comprar outro. Isso explica porque é possível ver tantos carros dos anos 50 (ou mais antigos) com todos os detalhes, como cromados, instrumentos, faróis e lanternas originais.

E a arquitetura?

Sim, também parou no tempo. A região central de Havana está dividida essencialmente numa parte bem antiga e outra mais “nova”.

A parte mais nova é a próxima ao Hotel Nacional e existem uns poucos prédios altos nessa região, todos datados dos anos 40/50, bem no estilo “caixotão” típico dessa época. Eu não vi absolutamente nenhuma construção na região central de Havana que seja do período pós-Revolução!

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Ao fundo alguns dos prédios de Havana na parte considerada a mais nova da região central cidade. Mesmo assim são todos anteriores a 1959.

A parte antiga da cidade, chamada “Habana Vieja” continua como nos anos 50. Degradada sim – e muito – mas intocada em suas características arquitetônicas.  São cerca de 214 hectares de área, onde vivem 66 mil habitantes em cerca de 22 mil habitações.

Em muitas vielas nessa região o cenário chega a ser perturbador: são dezenas de quadras repletas de casarões coloniais ou prédios que viraram grandes cortiços, já que foram divididos entre diversas famílias após a Revolução. A imensa maioria não recebe pintura há décadas e estão literalmente se desfazendo, embora continuem habitados. É comum ver musgo e vegetação crescendo pelas paredes aqui e ali em fachadas muitas vezes ricamente ornamentadas, que o tempo vai esfarelando. Uma profusão caótica de fios elétricos aleatoriamente instalados, roupas estendidas para secar nas sacadas de ferro…  Algumas vezes a sensação é de que algo vai desabar e pode cair na sua cabeça.

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Este é o cenário comum em boa parte da “Habana Vieja”

Mas mesmo assim, há um encanto em meio a esse caos. Eu acredito que não exista outra cidade do porte de Havana nas Américas que tenha mantido sua arquitetura intocada dessa forma. Se a situação econômica cubana melhorasse e pudessem ser feitos grandes investimentos para uma restauração maciça desses prédios, com certeza Havana se tornaria belíssima e voltaria a brilhar como no passado.

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É assim em dezenas de ruas. Praticamente nada de novo foi construído desde 1959. Um cenário triste, mas ao mesmo tempo inspirador se pensarmos no que poderia ser feito se tudo fosse restaurado e Havana recuperasse sua dignidade perdida.

Aliás – e felizmente – isso já existe, embora não tão intensamente quanto o desejável. Desde 1994 Havana tem um projeto de restauração de edifícios históricos chamado Plan Maestro, que conta com cerca de 40 profissionais e tem devolvido a beleza original a diversos prédios históricos. Na verdade o processo começou ainda antes disso, em 1981 com a restauração de 60 edifícios entre a Praça de Armas e a Praça da Catedral. O que se vê nessa região, que é a mais turística da capital, realmente é muito bacana. Percebe-se que o trabalho foi minucioso e os prédios estão belíssimos, assim como o seu entorno. Há de se citar também, que Habana Vieja é patrimônio reconhecido pela UNESCO.

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Prédios imponentes e bem restaurados como este mostram uma Havana que já teve ares de Europa.

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O Gran Teatro de Havana e o Capitólio ao fundo, ambos passando por restaurações.

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Todos os prédios no entorno da Plaza de Armas (ou Plaza Vieja) foram restaurados. O dia chuvoso prejudicou a foto, mas o resultado foi muito bom.

E no interior?

O que vi no interior foi o mesmo que em Havana. Muitas construções antigas caindo aos pedaços, mas também há várias coisas restauradas, especialmente ao redor das praças e regiões centrais das cidades. Timidamente algumas construções novas surgem aqui e ali.

A exceção são as regiões turísticas como Cayo Santa Maria e Varadero. Nesses locais há muitos hotéis e resorts de alto padrão novos ou em construção. Falarei disso mais adiante, em posts específicos.

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De uma rua decadente em Caibarien…

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…ao belíssimo e bem cuidado conjunto arquitetônico ao redor da praça central de Trinidad. Contrastes não faltam em Cuba.

E o que há de novo?

Quase nada. Mas timidamente algumas inovações vão entrando na vida do cubano, embora ainda sejam para poucos. Em algumas casas onde fiquei hospedado já havia TV de LED, por exemplo, mas esse tipo de “luxo” praticamente só é acessível aos cubanos que trabalham na área de turismo e tem um faturamento acima da média local. CDs e DVDs (piratas invariavelmente) estão na moda, como estiveram no Brasil há mais de 10 anos…

No comércio as contas ainda se fazem na velha máquina registradora, com calculadora ou à mão mesmo… O uso de cartões se restringe aos locais que só atendem turistas e mesmo assim é raro e limitado ao crédito apenas.

Em alguns locais vi alguns raros computadores. O acesso à internet é complicado e muito caro. Vi algumas lan houses, mas desisti de usar devido ao alto preço. Esqueça o acesso à internet por meio de smartphones.

Falando em smartphones, eis outra coisa pouco conhecida em Cuba. Algumas pessoas tem telefone celular, mas de modelos antigos e sem acesso à internet. O máximo que eles fazem é falar rapidamente ou enviar algumas raras mensagens de texto.

Tudo isso contribui para a sensação de volta no tempo ao visitar Cuba. Além de toda a atmosfera congelada no passado, ainda não se vê pessoas usando celulares ou tablets pelas ruas. Nem mesmo os turistas, visto que não há muito que se fazer com esses aparelhos sem internet. Por outro lado, ainda se vê coisas que sumiram de nossa realidade, como sapateiros, engraxates, costureiras e outros tipos de comércio. As crianças brincam muito mais nas ruas, os aposentados conversam ou jogam dominó e a vida ainda corre mais lenta nessa ilha esquecida nas trilhas do tempo…

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